terça-feira, 20 de março de 2007

Kings of Leon - Because of the Times (2007) ***


O Kings of Leon surgiu há 5 anos, exatamente a época em que o rock encontrava uma necessidade de ser relevante novamente. Havia uma entressafra de bandas para ditar as regras do jogo, apontar os caminhos. O último grande movimento concentrado, o grunge, já tinha 10 anos. Ok Computer, último sinal de tendência a ser seguida e aprimorada, já tinha 5. No momento, o rock se rendia a estilos cooptados pela indústria fonográfica para soarem furiosos, como o rap-metal de “Korn e “Limp Bizkit” e o punk-adolescente de “Blink 182”. Não ditavam as regras, e sim eram produtos das mesmas.

Nesse contexto, ele tentava se reencontrar, achar um viés para desbravar novamente num caminho em que sempre esteve ligado: a contracultura. Muitos acharam que essa rota estaria no cruzamento com a música eletrônica, e falharam. Outros procuraram olhar pra trás, e procurar outros períodos de entressafra pelas qual o rock já havia passado. Concomitantemente, a era do MP3 começava a ganhar uma força monstruosa, o que possibilitou e ampliou esse resgate. E não apenas isso, como facilitou a divulgação das bandas que participaram dessa reavaliação. Daí surgiu o Strokes, daí o White Stripes ganhou força comercial. E daí, pouco depois, o Kings of Leon dava suas caras.

E entre tantas fusões, alterações e releituras de estilos, o Kings procurou achar o seu próprio lugar ao sol. Não se bastou na conclusão que as outras bandas chegaram, de que o rock necessitava novamente da mentalidade do-it-yourself minimalista das bandas garageiras sessentistas. Eles resolveram ir um pouco mais além, e encontraram o Southern Rock de Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, Neil Young, o rock interiorano americano mais aliado ao country e ao folk. E juntaram a ele uma coisa que muitas bandas esqueceram de ver que também faltava na entressafra 2000: a diversão. Seus dois trabalhos transparecem uma característica que não é tão fácil de achar nas bandas atuais: tesão de tocar.

E agora lançam “Because of the Times”. Diferenças? O disco soa mais coagido com a necessidade de se firmar à sua geração musical. Músicas menos raivosas, canções mais longas, monocordismos. A mudança talvez se deva pela preocupação de não ficar datado quando a poeira da atual conjuntura musical baixar. Besteira, afinal alguém pensa no Stray Cats como uma banda dos anos 50? O grupo se afastou um pouco do clichê “banda de pub” adicionado à fórmula dos seus primeiros trabalhos. “Because of the Times” soa um pouco mais preso, o que não representa necessariamente perda de qualidade ou mesmo de personalidade. O Kings of Leon ainda caminha por uma estrada própria dentro do rock contemporâneo: uma estrada barrenta, deserta e cheia de percalços. E, no entanto, mais divertida e com muito mais gás que as demais.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Norah Jones - Not Too Late (2007) *


Seja quente ou frio, nunca seja morno. Essa frase se torna muito pertinente para apontar a principal fraqueza de “Not Too Late”, terceiro trabalho da cantora Norah Jones. Suas músicas continuam com a mesma levada pop-jazz dos discos anteriores, com arranjos econômicos que privilegiam os silêncios e pausas para criar um clima leve e ao mesmo tempo emotivo. Entretanto aqui a emoção fica menos evidente. Muito devido à imposição mais contida da voz de Jones, muito às próprias escolhas estilísticas. O que poderia propiciar uma maior elegância, na verdade acaba soando arrastado e impreciso.

As composições não fazem feio, o que é um grande alívio, afinal trata-se do álbum mais autoral da cantora (todas as músicas têm participação de Norah na composição). Um tanto mais pop que as canções gravadas anteriormente, mas nem por isso pode-se dizer que é um álbum mais comercial. Na verdade não há em “Not Too Late” uma profunda mudança em termos de estilo e seqüência em sua carreira. Estão lá todos os elementos que funcionaram tão bem antes: o jazz de cabaré (“Sinkin Soon”), as baladas delicadas (“Not My Friend”), uma influência moderada de country (“Wake Me Up”). E apesar de tudo, é um disco diferenciado. Mas essa diferença acaba se tornando seu demérito: a tentativa de um álbum mais contido acabou se perdendo em uma exagerada moderação. Sem altos e baixos, ele não empolga, não incita novas audições.

O destaque positivo acaba sendo a única canção que desvirtua um pouco essa regra, a valsa “My Dear Country”. Climática e melancólica, a canção destoa por justamente ter um arranjo e uma interpretação condizente com a sua natureza. Infelizmente não é a tônica de “Not Too Late”. Por não apresentar um desnível tão grande, vai agradar à grande maioria dos fãs da cantora, mas fica a sensação que, na mão de uma produção mais aberta, dinâmica e sensível, ele renderia muito mais.

terça-feira, 13 de março de 2007

The Stooges - The Weirdness (2007) ***


Os Stooges sempre foi a banda seminal do garage rock. O garage rock costumam ter seu sentido e conceito distorcidos, sua energia confundida com tosquice, e seu minimalismo com descuido. Mas ignorando isso tudo, foi expoente de um movimento musical que revolucionou o rock´n´roll como poucos. A “Blank Generation”, como ficou conhecido o conjunto das bandas garageiras dos anos 70, pregava a urgência, o niilismo, a intensidade máxima até as últimas consequências. Fácil de compreender se pensarmos que surgiu na ressaca do “Flower Power”, quando as esperanças do conceito “paz e amor” foram corroídas pelos exageros e os ídolos da geração hippie estavam morrendo ou definhando.

Entretanto, uma armadilha fácil da atual crítica musical é desvincular as músicas e movimentos da época que foram gerados, baseando suas análises estritamente no campo auditivo, desprezando seu valor e esquecendo que o subversivo de ontem é o incompreendido de hoje. Não é difícil entender o porquê disso. Em um tempo que o rock é cada vez menos usado com canalizador das inconstâncias e inconformismos da juventude, não faz sentido buscar atribuições maiores à música do que sua única e exclusiva função de nos entreter.

E no meio dessa crise de identidade do rock mais desregrado que os Stooges retornam com “The Weirdness”, ou “A Esquisitice”. O título não poderia ser mais apropriado: A despeito de suas qualidades e imperfeições, os Stooges disparam sua energia contra ouvintes moderados, desprovidos de inquietudes visíveis ou que estejam claras em um inconsciente coletivo. Se hoje o rock ainda é conceito, é muito mais pela postura blasé cuidadosamente calculada, ou pelas influências medidas a conta-gotas, do que por um idealismo. Não há nada mais anacrônico do que procurar, na música, uma identificação na forma de enxergar o mundo.

Falando de suas qualidades específicas, “The Weirdness” é inferior aos discos anteriores. Percebe-se tesão e tensão misturadas em cada uma de suas faixas. Mas a sinceridade está ali, explícita, como pouquíssimos trabalhos atuais ousam mostrar. Adjetivos como “cru”, “visceral” e “selvagem” sempre protagonizaram os clichês jornalísticos em torno dos Patetas. O engraçado é que atualmente essas palavras dificilmente são devidamente compreendidas. Ou pior: são confundidas a todo momento com rebeldia plastificada.

A energia não se foi, mas não estamos falando mais de rapazes de vinte e poucos anos com pouca pretensão de um futuro promissor, e sim de senhores quase sexagenários buscando juntar os cacos do passado que não esperavam que fossem ter. “The Weirdness” soa como um estranho no ninho, um sopro cansado e comedido de inspiração em meio à estagnação na qual se encontra atualmente o espírito contestador do rock.

segunda-feira, 12 de março de 2007


Wilco - Sky Blue Sky (2007) *****


O que difere uma obra-prima de uma obra convencional? Será a quebra de tendências, o maior índice de escolhas corretas, a sinceridade exalada...? Infinitos conceitos já foram escritos e viraram argumentos, sem que nenhum me convencesse plenamente. Ao ouvir Sky Blue Sky, novo disco do Wilco, essa pergunta que eu fiz tantas vezes buscando respostas coerentes e racionais perdeu completamente o significado.

Mas isso é mais difícil ainda de explicar, porque não existe fórmula que faça algo se aproximar da perfeição. Então os artistas recorrem ao velho processo de tentativa-erro baseadas nas únicas coisas que podem se calcar: suas próprias percepções de vida e suas emoções. Só que quando um Pet Sounds (dos Beach Boys), um Grand Prix (do Teenage Fanclub) e este Sky Blue Sky são concebidos, a naturalidade e a facilidade com a qual os ouvimos nos fazem descrer em qualquer método e apegar única e exclusivamente em algo acima disso, inexplicável, de uma conjunção de momento, sensibilidade e genialidade.

E foi completamente desarmado que escutei à novidade do Wilco e, no fim da audição, me encontrei em um êxtase que não sentia há muito tempo, que pouquíssimas obras souberam causar em mim. A trupe de Jeff Tweedy já havia jogado em praça alguns dos melhores discos dos últimos 15 anos: o alt-pop “Being There”, o leve e melódico “Summerteeth”, e o experimental “Yankee Hotel Foxtrot. Todos com canções belíssimas, arranjos de bom gosto e sem exageros, letras delicadas. Caíram um pouco em “A Ghost is Born”, que mesmo assim, também tem seus momentos magistrais. Todos esses discos são bem diferentes um do outros, mas todos dotados de inspiração ímpar para gerar músicas ao mesmo cantaroláveis e genuinamente emocionais, coisa rara dentre as bandas de mesmo estilo dos últimos 10 anos.

E agora lançam esse petardo, que abre com “Either Way”, desde já uma das canções mais belas da década, com sua letra de lamentações e esperança (Maybe you still love me, maybe you won´t/ I won´t be so afraid/ I´ll try to understand), seguindo com a intimista e country “Sky Blue Sky”, a beatles-soul “Side With the Seeds”, a quase vaudeville “Walken”, e terminando com a sublime “On and On and On”. Em termos referenciais, o Wilco deixou um pouco de lado o experimentalismo dos dois últimos álbum e focou em canções mais assimiláveis, com uma leve influência soul permeando todas as faixas. Mas o que importa isso, diante da beleza que o disco todo exala? É muito bom estar diante de uma obra-prima e ter a percepção desse momento. Se até esse disco o Wilco e Jeff Tweedy representavam para mim uma grande banda e um compositor talentoso, hoje são a tradução do que há de melhor, mais verdadeiro e mais singelo na música pop de sua geração.





Outros discos do Wilco:

A.M. (1995) ***
Being There (1996) ****
Summerteeth (1999) *****
Yankee Hotel Foxtrot (2001) ****
A Ghost is Born (2004) ***